Uma viagem aos desenhos infantis

Os desenhos animados, assim como as histórias infantis, fascinam as crianças porque traduzem para elas diferentes visões de mundo, conhecimento e diversão. Também ajudam a trabalhar seus medos e frustrações. Auxiliam a perceber valores positivos e negativos, e tudo isso envolvido em um formato extremamente divertido. É importante frisar que as crianças são “educadas” pelos desenhos animados antes mesmo de serem alfabetizadas. Esse é apenas um dos motivos que indicam a importância de incentivar a animação brasileira nos meios de comunicação, principalmente nas televisões.

A televisão aberta exibe hoje uma diversidade muito grande de desenhos. São apresentados clássicos como Pernalonga, os desenhos da Disney, Flintstones, Scooby Doo, Jetsons, Pantera Cor-de-Rosa e também desenhos com uma roupagem mais moderna, como por exemplo, Bob Esponja, Meninas Superpoderosas e Os Simpsons. Os temas são diversos e só poderiam ser analisados especificamente; porém, de maneira geral podemos dizer que cada desenho traduz a época e os valores sociais de seu período de produção.

Os clássicos são sempre interessantes. Os Flintstones representam a figura paterna e a materna, relações de vizinhança e amizade, crianças, relações de trabalho, coisas típicas do universo masculino e feminino sempre num tratamento leve e com bom humor. Mostra-nos o modo americano de vida, mas é uma boa animação. A Pantera Cor-de-Rosa é divertida, extremamente elegante e diferente, pois não possui nenhum diálogo. Os desenhos do Pernalonga e da Disney são sempre atraentes e encantadores. Na atualidade, para quem tem crianças pequenas e possui acesso aos canais fechados de televisão, recomendo o Discovery Kids, pois suas animações são divertidas, interessantes e fogem da violência comumente observada nos desenhos da televisão aberta.

Quando criança, eu gostava de todos os clássicos. Hoje em dia gosto muito da produção da Pixar, no caso dos longas-metragens, e procuro acompanhar a produção da animação nacional presente nos festivais de cinema e vídeo pelo País.

Em geral, os produtores não estão muito preocupados em criar histórias com mensagens educativas às crianças. As histórias difundem valores e, embora isso possa até ser feito de modo pedagógico, isso não implica uma transmissão de mensagem educativa. A animação é um negócio lucrativo e sua relação é mais ligada ao entretenimento e à diversão. Agora, atualmente tem aumentado o número de animações direcionadas para jogos educativos e sites da internet que procuram aliar educação e diversão. Acredito que, no futuro, a educação à distância será ampliada e as escolas devem aumentar a utilização dos multimeios, integrando cada vez mais a necessidade de transmissão de conhecimento com a animação, de forma prazerosa.

É preciso diferenciar o significado e o sentido da violência presente nas animações. Quando se assiste a um Tom e Jerry, por exemplo, pode-se pensar, de forma errada, que se trata de um desenho violento, pois há diversas cenas onde o rato e o gato se agridem. Porém, quando o Tom pega uma frigideira e bate repetidamente na cabeça do Jerry e a frigideira adquire o formato do rato a cada batida, isso possui um efeito de diversão. A violência, aqui, é uma ferramenta para o exercício da fantasia e do humor. Daí a não percepção disso como sendo necessariamente uma violência. Essa utilização é muito comum nos desenhos clássicos e bem diversa daquela onde se utiliza a força bruta apenas como instrumento de poder.

Já outros desenhos trazem lutas brutais, cenas até de tortura sob o pretexto de o vilão conquistar o mundo ou algum bem material e isso é a justificativa para utilização da violência tanto por mocinhos quanto por bandidos. Esse tipo de argumento não acontece só nas animações. Nos filmes de ficção isso ocorre com grande freqüência.

Qual o último filme americano que você viu que não tinha a figura do “herói”? Qual o “herói” de filme americano que não recorreu à força bruta para atingir seus objetivos? A força bruta é utilizada como fórmula de resolução dos problemas. Talvez o “sucesso” das animações com cenas de luta e violência se expliquem pelo mesmo motivo do “sucesso” dos filmes com atores de carne e osso. Há um exagero da violência que encanta o público criando um ciclo vicioso. Talvez isso tenha contaminado as animações.

Quando fez “Os incríveis”, a Pixar colocou uma cena de tortura no filme sem a menor necessidade. Num momento da história, o Sr. Incrível está imobilizado pelo Síndrome e, quando ele descobre que sua família está chegando à ilha onde ele se encontra preso, ele se revolta e recebe uma descarga elétrica (choque) como resposta do vilão. Ora, ele já estava imobilizado, não conseguia se libertar das correntes. A descarga elétrica naquele momento foi pura maldade, não mudou em nada o andamento da história.

Por Ítalo Cajueiro*

*Desde criança, Ítalo Cajueiro sempre sonhou em trabalhar com animação. Em 1997 trabalhou em uma produtora de Brasília que estava finalizando dois desenhos animados da Turma da Mônica. Quando terminou esse trabalho, associou-se a um amigo, o Elvis Kleber, e produziram o curta-metragem de animação “O Lobisomem e o Coronel”. Este filme já conquistou 23 prêmios em festivais do Brasil, inclusive o prêmio do Anima Mundi de melhor filme do festival nas etapas do Rio de Janeiro e São Paulo. Depois realizou o filme “A moça que dançou depois de morta”, que conquistou 17 prêmios em festivais de cinema. Hoje sonha em continuar produzindo filmes associados a temas brasileiros.

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